quarta-feira, 11 de março de 2009

-Ma Non Troppo

No canto da estante,
Um instante,
Que, estanque,
Se quedou entre nós dois.

E aquele copo,
Aquela conversa doida,
Que nunca mais se repetiria...

Ficou tudo gravado
Naquela velha estante.


(H. Chiurciu et G. Iunes)

sexta-feira, 6 de março de 2009

DeLírios

Ahhh... Desse cara eu sei bem. Chegou meio assim, no auge da vida etílica, andando em compasso composto. Estávamos sentados em círculo, discutindo como seria a tarde. Não sei, mas algo o incomodava, ou o pressionava a falar, a contar a novidade:
-Ei você, sabe o que vão plantar no canteiro?
Eu não sei, não... muito menos as pessoas que vomitavam palavras ao meu redor. Nenhuma delas lhe deu atenção. Foi quando ele tentou procurar:
-Eu tava lá, numa reunião de advogados... me trataram tão mal lá. Eu cheguei e todas as garotas pagaram um pau pra mim. Até chegar aquela menina peituda, que me achou nada a ver, e todo mundo foi na dela... Tinha um cara lá, com um óculos-fundo-de-garrafa e com uma namorada linda, linda. Ela dançava muito!
E conseguiu ao menos um interessado, mas já não tinha mais paciência pra esse tipo de pessoa. Onde já se viu, fazer aquela pergunta?
-Como assim ‘o que ela dança’? Ela mexe a bunda, cara! Ela mexe a bunda a vida inteira!
E prosseguiu indignado. Como aquelas pessoas falavam da tarde vazia, e não do canteiro que estava pra ser preenchido? Ele sabia o que era, mas ninguém queria saber. As palavras brotavam de sua boca com uma naturalidade sem tamanho, ele tinha motivos pra estar daquele jeito, a gente não. Gostava de poesia e se irritava com essas parafernalhas eletrônicas. As coisas à mão são tão mais graciosas, disso ele tinha razão. Mas ninguém se importava, ao ponto do surto e das variações de comportamento que o rapaz tinha.
Agora ele ameaçava o cara, o outro cara, o que discutia a tarde. Ele odiava esse tipo de gente, pelo menos quando ele estava daquele jeito. O outro cara, o que não participava de nenhuma discussão, perdeu a paciência. Sem pensar, igual à figura tão hostil aos nossos primeiros olhares, fez o taco zunir pelo ar e encontrar a cabeça, que só pensava no canteiro. Não pensou na dor. Eu pensei, quase desmaiei por ele. Ele foi para o canto, o cachorro, encolhido. E antes de sair, disse à quem quisesse ouvir:
- No canteiro serão plantados lírios. Lírios.
Que estavam me obrigando a contar o ocorrido, mesmo sem o lirismo que me imploravam.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

poralí

vai o passarim
passarinhando.

de lá pra cá
de cá pra lá
daqui pra mi
dali pra ré
sem dó.

ih, óo passarindo embora.

bem trovador que é,
foi passarinhar poracolá.

18.02.09

Foi carnaval

É cinza, são cinzas.
Lá se foi meu carnaval,
E me restou quarta-feira.
Sobrou o confete caído
E a voz rouca

Meu samba calou, murchou.
Minha viola, tristonha,
Nem choro fez,
Nem pensou em drama
Só se calou.

A Gravata

à dor, nós
adornos
a dar nós
Acorda e faz o ritual de todos os dias.Não há tempo pra pensar.Então surge o dia já no meio, profanando semanas de obediência à automatização.Eis o tempo que não tinha, e que poderia ficar sem ter.E lá vem a numeralha de incertezas, das pessoas na rua e você.Na rua? Nas pessoas? Na numeralha? E por lembrar de livros que nunca terminou, e o título daquele do Balzac que nunca leu, a idéia de não-vida não é mais idéia.Seguindo a seqüência delas, se reflete deformado no conto do meio, e acha ridículo o novo eufemismo.E pra que serve o espelho senão pra isso?E pra que servir pra isso?
Pensa sempre em abandonar as interrogações, a entonação no final das frases.
Por uma tarde cansa de acreditar na teoria dos figurantes, de fingir as coisas fáceis.Amanhã será um dia de não-vida, de coisificação.O resto do ano também.Como tem que ser.Falso fácil!
A dor na garganta naquele lugar era uma novidade.Como podia, assim, num vagão ter aquela dor tão dor, e tão sem motivo? Se ali descobrissem que ela estava com aquilo de novo, com aquela do Stevens na cabeça – se ela descobrisse que aquilo é ela e mais nada, que ela é tão romântica. Lutava contra isso: franzia a testa, torcia o nariz, olhava pro chão, se segurava ao ferro com tanta força, como se quisesse ser daquele mesmo jeito, frio, segurando todo mundo, mudo. Queria sair, chamar os amigos e ir à praia, ao campo, até às coisas mais bucólicas, aderir ao islamismo, ao cinismo, ao pragmatismo, aos ismos, usar as drogas de sessenta quase setenta e dormir. Pra ver se parava de pensar, se facilitava as coisas, se parava de perceber a garganta. De repente um intervalo de quarta descendente:
-“Estação-a-sua.”
Descia e continuava. “I hope you have a lot of nice things to wear”